{"id":153489,"date":"2020-07-08T10:10:27","date_gmt":"2020-07-08T13:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/eephcfmusp.org.br\/portal\/online\/?p=153489"},"modified":"2025-07-23T11:30:38","modified_gmt":"2025-07-23T14:30:38","slug":"aumento-alcool-drogas-pandemia-da-covid-19-e-ameaca-a-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hcxfmusp.org.br\/portal\/aumento-alcool-drogas-pandemia-da-covid-19-e-ameaca-a-saude\/","title":{"rendered":"Aumento de \u00e1lcool e drogas na pandemia da Covid-19 \u00e9 amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade"},"content":{"rendered":"

Em 25 de junho, foi celebrado o Dia Internacional de Combate \u00e0s Drogas e a associa\u00e7\u00e3o com seu consumo neste momento de pandemia \u00e9 inevit\u00e1vel. Em todo o mundo, causou reconhecidamente o aumento do uso de \u00e1lcool e drogas na pandemia<\/strong><\/span>, o que levou a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<\/a><\/span>, ainda em abril, a recomendar que os pa\u00edses limitassem a venda de bebidas. Na \u00c1frica do Sul, foram fechadas as se\u00e7\u00f5es dos supermercados e algumas cidades norte-americanas proibiram a venda de \u00e1lcool pela internet. O Brasil n\u00e3o apresenta restri\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do fechamento de bares em cidades onde se adotou o isolamento social.<\/span><\/p>\n

Por que pessoas passam a consumir mais \u00e1lcool e drogas<\/strong> diante de uma pandemia?<\/span><\/h2>\n

\u201cEsse \u00e9 um modelo bastante antigo, no qual as pessoas buscam nas subst\u00e2ncias o que chamamos de coping<\/em>, uma palavra em ingl\u00eas que tem associa\u00e7\u00e3o com a maneira de enfrentarmos os problemas e tamb\u00e9m com a nossa resili\u00eancia. \u00c9 a forma como reagimos \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de estresse, amea\u00e7a, ansiedade e desconforto emocional. Algumas pessoas respondem a esses sentimentos negativos atrav\u00e9s do uso de drogas, e \u00e9 o que a gente tem percebido nessa pandemia; as pessoas acabam usando drogas mais sedativas e anest\u00e9sicas (\u00e1lcool e maconha, por exemplo) e usam menos drogas estimulantes, principalmente porque n\u00e3o est\u00e3o ocorrendo as famosas raves<\/em> e festas \u2013 locais que t\u00eam maior \u00edndice do uso de \u00eaxtase ou \u00e1cido. Ent\u00e3o, sim, \u00e9 uma forma de seda\u00e7\u00e3o, de anestesia e de rea\u00e7\u00e3o a esses sintomas negativos ligados a sofrimento, ansiedade, estresse, imprevisibilidade \u2013 n\u00e3o sabemos quando vai acabar, n\u00e3o sabemos se vamos nos contaminar ou se as pessoas que gostamos v\u00e3o pegar o coronav\u00edrus tamb\u00e9m.\u201d Quem explica \u00e9 o Prof. Dr. Andr\u00e9 Malbergier, Professor Colaborador M\u00e9dico do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP<\/a><\/span> e coordenador do GREA (Grupo Interdisciplinar de Estudos de \u00c1lcool e Drogas)<\/a><\/span>.<\/span><\/p>\n

Sa\u00fade mental e Covid<\/strong><\/span><\/h2>\n

Em sua rotina com pacientes e dependentes de \u00e1lcool e drogas<\/strong>, Dr. Andr\u00e9 identifica que, desde mar\u00e7o, quando come\u00e7ou a quarentena especialmente na cidade de S\u00e3o Paulo, tem-se percebido que a sa\u00fade mental<\/a> das pessoas piorou. \u201cLogo que surgiu a pandemia e esse confinamento, as pessoas tinham a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo acabaria em um ou dois meses, e hoje, a princ\u00edpio, elas conhecem mais sobre o problema. Por um lado, isso pode ajudar, mas por outro, j\u00e1 ficou entendido que n\u00e3o vai haver uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica que mudar\u00e1 totalmente o panorama \u2013 apenas quando chegar a vacina, e se chegar\u201d, explica.<\/span><\/p>\n

Ele ressalta que as universidades, por exemplo, j\u00e1 informaram que s\u00f3 retomar\u00e3o as aulas presenciais em 2021 e, assim, as pessoas passam a acreditar que nada mais acontecer\u00e1 at\u00e9 o fim deste ano – para quem j\u00e1 vem sofrendo, essa sensa\u00e7\u00e3o de prolongamento do tempo contribui para a piora da sa\u00fade mental.<\/span><\/p>\n

\u00c1lcool e drogas no p\u00f3s-pandemia<\/strong><\/span><\/h3>\n

A sensa\u00e7\u00e3o de que tudo seria resolvido rapidamente tamb\u00e9m pode ter contribu\u00eddo para o afastamento de muitos pacientes de seus tratamentos ou mesmo de reuni\u00f5es de apoio, ainda que online<\/em>. \u201cAs pessoas acharam que a pandemia poderia durar um m\u00eas, seria um prazo curto, ent\u00e3o se houvesse o maior consumo de \u00e1lcool e drogas<\/strong>, se elas ficassem sem dinheiro, o problema n\u00e3o seria t\u00e3o grande, pois tudo isso iria passar. Mas \u00e0 medida que o tempo aumenta e a previs\u00e3o de voltar \u00e0 normalidade fica mais longe, elas de alguma forma percebem que esse processo de deixar de buscar ou procurar o tratamento pode n\u00e3o ser saud\u00e1vel\u201d, diz Dr. Andr\u00e9.<\/span><\/p>\n

Para tanto, no GREA, foi desenvolvido um programa chamado PAR (Programa de Acompanhamento Remoto)<\/a><\/span>. Este programa oferece aos pacientes do ambulat\u00f3rio um plant\u00e3o de profissionais dispon\u00edveis por chat em hor\u00e1rio comercial e tamb\u00e9m agendamento e realiza\u00e7\u00e3o de consulta remota online<\/em>. Nos contatos, os pacientes s\u00e3o avaliados sobre o uso de drogas, relacionamentos familiares nessa \u00e9poca de isolamento e rotina, entre outros. Dependendo da gravidade do caso, o indiv\u00edduo pode ter estes contatos virtuais intensificados, ou mesmo ser chamado para uma avalia\u00e7\u00e3o presencial. Al\u00e9m disso, a equipe tamb\u00e9m iniciou uma abordagem familiar, atrav\u00e9s do site, feita por um dos profissionais do GREA.<\/span><\/p>\n

Limitar o \u00e1lcool no Brasil seria uma solu\u00e7\u00e3o? \u201cAcho essa uma quest\u00e3o dif\u00edcil. Li h\u00e1 poucos dias que o governador do Paran\u00e1 tinha proibido a venda de \u00e1lcool a partir das 22h para evitar o consumo, aglomera\u00e7\u00e3o de jovens e tamb\u00e9m tentar diminuir o risco de beber e dirigir. Ou seja, existem algumas a\u00e7\u00f5es locais, mas confesso que n\u00e3o sei se o brasileiro est\u00e1 preparado para esse tipo de abordagem. Somos um pa\u00eds pouco legalista e as pessoas tendem a n\u00e3o aceitar muito essas leis, acabam burlando e, se proibir a venda, cria-se o \u2018mercado negro\u2019\u201d, afirma Dr. Andr\u00e9.<\/span><\/p>\n

Por outro lado, ele acredita que \u00e9 preciso esperar para ver se haver\u00e1 algum resultado positivo da implementa\u00e7\u00e3o no Paran\u00e1. \u201cPoder\u00edamos, sim, tentar criar outras limita\u00e7\u00f5es, como n\u00famero limitado de quantidade de \u00e1lcool para delivery<\/em> ou aumentar o pre\u00e7o da bebida, incluir um imposto nela \u2013 esta \u00e9 uma iniciativa mundialmente reconhecida para diminuir o consumo rapidamente. Esse imposto adicional poderia at\u00e9 ser usado em a\u00e7\u00f5es ligadas ao combate da Covid-19\u201d, sugere.<\/span><\/p>\n

Consumo de drogas na pandemia \u00e9 responsabilidade de todos\u00a0<\/strong><\/span><\/h3>\n

Durante o momento de crise, pode acontecer de uma pessoa que n\u00e3o consumia \u00e1lcool e drogas<\/strong> passar a consumir; por\u00e9m, os especialistas sabem que os fatores de risco para desenvolvimento de problemas com essas subst\u00e2ncias durante a pandemia t\u00eam a ver com os chamados fatores de pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o e vulnerabilidade da pessoa: indiv\u00edduos com algum tipo de transtorno mental, como ansiedade e depress\u00e3o, ao entrarem em contato com a droga, t\u00eam mais dificuldade de controlar o consumo. \u201cQuando ele j\u00e1 tem um uso pr\u00e9vio de drogas, antes da pandemia, tem que se cuidar ainda mais\u201d, alerta Dr. Andr\u00e9.<\/span><\/p>\n

O caso de panoramas familiares hostis pode ser fortemente agravado em um momento de confinamento \u2013 a conviv\u00eancia for\u00e7ada desgasta ainda mais os relacionamentos. Nestes casos, o professor v\u00ea o risco de uma pessoa que, eventualmente, n\u00e3o tinha o padr\u00e3o de comportamento de uso de \u00e1lcool e drogas<\/strong> passar a ter.<\/span><\/p>\n

E de quem \u00e9 a responsabilidade? Dr. Andr\u00e9 a distribui: \u201c\u00c9 um pouco do governo; ele pode e deve falar com as pessoas e tentar orientar, seja por campanhas de televis\u00e3o ou internet. O fato do governo j\u00e1 demonstrar que se preocupa com o assunto e de alguma maneira orientar as pessoas desses riscos associados ao uso de \u00e1lcool e drogas<\/strong> dentro de casa, durante o confinamento, j\u00e1 \u00e9 um ponto. Como j\u00e1 sugeri, um imposto a mais nesse momento seria bem-vindo\u201d.<\/span><\/p>\n

Ainda, a sociedade tamb\u00e9m tem seu papel, \u201cporque ela pode estimular ou n\u00e3o o uso de drogas, mas, em geral, h\u00e1 o est\u00edmulo. As pessoas brincam e incentivam, por meio das m\u00eddias sociais, o uso de bebida, de preparar drinques, etc.\u201d, diz.<\/span><\/p>\n

E, finalmente, a fam\u00edlia tem sua cota de responsabilidade nesse per\u00edodo de confinamento. \u201cEla tem um papel extremamente importante de definir os limites: j\u00e1 que na pandemia pode tudo, ent\u00e3o o filho pode beber, pode usar drogas, dormir a hora que for e n\u00e3o ter rotina. Ou seja, quando a fam\u00edlia autoriza mudan\u00e7as de comportamentos ou comportamentos que podem trazer preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade, \u00e9, sim, uma responsabilidade familiar\u201d, ele alerta.<\/span><\/p>\n

Um passo antes da reinser\u00e7\u00e3o social: objetivo \u00e9 manter o contato<\/span> <\/strong><\/span><\/h3>\n

Dr. Andr\u00e9 v\u00ea a quest\u00e3o de reinser\u00e7\u00e3o social \u2013um dos pilares do tratamento \u2013 como um dos maiores desafios deste momento, j\u00e1 que o trabalho agora \u00e9 remoto; ent\u00e3o, n\u00e3o se trata de reinser\u00e7\u00e3o social no sentido amplo, mas sim em manter o contato com o paciente, manter as pessoas em tratamento e o suporte para aquelas vulner\u00e1veis.<\/span><\/p>\n

\u201cHouve o afastamento social no come\u00e7o, mas \u00e9 fato que o retorno n\u00e3o ser\u00e1 imediato. Portanto, devemos, sim, retomar o contato com as institui\u00e7\u00f5es de tratamento, com os profissionais que o tratam. A essa reinser\u00e7\u00e3o social chamamos mais de \u2018contato com o profissional de sa\u00fade\u2019. E sim, todos os grupos, NA (Narc\u00f3ticos An\u00f4nimos)<\/a><\/span>, AA (Alco\u00f3licos An\u00f4nimos)<\/a><\/span>, est\u00e3o fazendo um bom trabalho atrav\u00e9s da internet. Todas as pessoas que quiserem podem entrar nesses grupos online<\/em>. Al\u00e9m disso, elas podem ampliar os hor\u00e1rios das discuss\u00f5es digitais, ou seja, o indiv\u00edduo pode participar de mais de um grupo, o que \u00e9 mais do que quando participava presencialmente. Essa iniciativa pode significar um refor\u00e7o no atendimento a essas pessoas\u201d, defende.<\/span><\/p>\n

Finalmente, Dr. Andr\u00e9 lembra o GREA tem buscado divulgar v\u00eddeos em seu site para informar e manter o contato com as pessoas mais vulner\u00e1veis e com o p\u00fablico em geral.<\/span><\/p>\n

Cursos de Sa\u00fade Mental<\/b><\/span><\/h4>\n

O HCX Fmusp, como centro educacional do Hospital das Cl\u00ednicas da USP, oferece diversos cursos na \u00e1rea de sa\u00fade mental. O objetivo \u00e9 contribuir com a forma\u00e7\u00e3o do profissional para a constru\u00e7\u00e3o, fortalecimento e dissemina\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do cuidado de excel\u00eancia dos pacientes<\/span>.\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n