Nesta era digital, os jogos de azar estão cada vez mais acessíveis. O que antes era disponível apenas em casas de apostas, hoje está na palma da mão e pode ser acessado até mesmo por crianças e jovens – e, com o tempo, cresce a possibilidade de surgir uma compulsão conhecida como ludopatia ou Transtorno de Jogo.
Apesar de ter ganhado mais visibilidade com o aumento dos jogos de azar online, a ludopatia é uma condição médica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1980, e tem o CID-11 Transtorno de Jogo (6C50).
“O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) caracteriza o transtorno do jogo como uma condição de saúde mental, listada sob ‘Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos’. Este foi o primeiro comportamento não relacionado a uma substância a ser reconhecido como um transtorno aditivo, reforçando que é uma forma de dependência comportamental”, explica a Dra. Nicole Rezende, psiquiatra colaboradora e pesquisadora do Ambulatório de Transtornos do Impulso do IPq HCFMUSP.
O que é ludopatia?
A ludopatia, ou Transtorno de Jogo, é um padrão persistente de comportamento de jogo em um indivíduo que perdeu o controle e continua a apostar apesar das consequências negativas.
Para comprovar que o indivíduo evoluiu da dependência, é necessário avaliar uma combinação de fatores psicológicos, biológicos e sociais. De acordo com o DSM-5, ele deve apresentar ao menos quatro dos nove critérios descritos a seguir em um período de 12 meses:
- Necessidade de apostar quantias crescentes de dinheiro para sentir a excitação desejada;
- Irritabilidade ou inquietação ao tentar parar ou reduzir o jogo;
- Tentativas repetidas e fracassadas de parar ou controlar o comportamento de jogo;
- Pensamentos frequentes sobre o jogo, incluindo o planejamento de apostas futuras e o cálculo de como obter dinheiro para isso;
- Apostar após situações de estresse ou quando está se sentindo desconfortável (ansioso, deprimido ou culpado);
- Tentar recuperar perdas financeiras por meio de mais apostas;
- Mentir para esconder o envolvimento com o jogo;
- Prejudicar relacionamentos, trabalho ou outras áreas importantes da vida devido ao jogo;
- Recorrer a outras pessoas para obter dinheiro com o objetivo de aliviar uma situação financeira difícil desencadeada pelo jogo.
Por que as apostas viciam?
A ludopatia é desencadeada pelo desafio que provoca excitação, o que pode levar à dependência, assim como qualquer substância estimulante que atue no sistema nervoso central.
“Os jogos são projetados com eventos de “quase-ganho” e recompensas imprevisíveis, criando uma sensação de “quase vencer” que mantém o jogador envolvido”, explica a especialista.
Ainda, a ativação do sistema de recompensa do cérebro libera dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer, o que reforça o desejo de continuar apostando.
“À medida que alguém joga mais e mais, seu cérebro desenvolve uma tolerância à dopamina liberada pelo jogo. Com o tempo, apostar a mesma quantia de antes não produz o mesmo efeito, e o indivíduo passa a assumir riscos cada vez maiores”, explica Dra. Nicole.
Regulamentação de casas de aposta pode agravar casos de ludopatia
Em 2023, com a aprovação da Lei 14.790, o Brasil se juntou aos países com regulamentações para apostas esportivas. Isso segue o modelo de países europeus e dos Estados Unidos, onde há licenciamento, tributação e padrões de proteção ao consumidor. Porém, mesmo com a regulamentação, ainda há diversos sites ilegais ativos no país.
“O número de brasileiros que passaram a apostar tem aumentado exponencialmente, e, consequentemente, estamos observando um aumento na procura por atendimento com problemas com apostas em serviços de saúde mental. Isso reflete tendências vistas em outros países que regulamentaram mercados de apostas, o que pode representar um risco potencial para a saúde e o bem-estar de indivíduos mais vulneráveis a desenvolver transtornos mentais.”, ressalta Dra. Nicole.
Impactos na saúde e quando buscar ajuda
Mais do que impactar as finanças, a ludopatia é uma condição que pode afetar a vida pessoal, profissional e a saúde mental do indivíduo.
“À medida que a dependência evolui e o jogador compulsivo passa mais tempo tanto apostando quanto se preocupando ou lidando com as consequências do jogo, ele passa a não se alimentar corretamente, não dorme bem, e os efeitos são amplamente documentados e comumente incluem comprometimento motor e cognitivo, labilidade de humor e desregulação imunológica”, afirma a profissional.
Ela também reforça que a ludopatia pode ajudar a desencadear hipertensão, doenças cardiovasculares, e condições psicológicas, como ansiedade, depressão e, em casos graves, ideação suicida. Além disso, pode levar a outras dependências, como o álcool e tabagismo.
“Assim como em outras condições de saúde, é preciso procurar ajuda profissional. O tratamento, idealmente, deve ser multidisciplinar e incluir diversas abordagens, como psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico para avaliação médica e das condições psiquiátricas associadas, orientação familiar e aconselhamento financeiro, bem como participação em grupos de ajuda mútua, como os Jogadores Anônimos”, orienta Dra. Nicole.
A ludopatia tem tratamento, e procurar ajuda pode prevenir consequências mais graves. Busque um profissional e proporcione mais qualidade de vida para você!
