As terapias psicodélicas usam substâncias específicas para ajudar nos processos psicoterapêuticos. O “fenômeno psicodélico” atua para mudar percepções e experiências, e assim modular e facilitar o tratamento.
Espera-se, com acesso a novos estados mentais, promover mudanças psíquicas, melhorar a regulação emocional e até mesmo auxiliar na busca por um sentido na vida.
Com a orientação profissional adequada, essas terapias têm o potencial de abrir caminhos para o paciente examinar e ressignificar suas vivências.
Um dos grandes diferenciais dessas terapias é o efeito antidepressivo rápido, que se manifesta em horas ou dias, e a possibilidade de um tratamento breve com poucas sessões, algo bem diferente dos remédios de uso contínuo.
Quem explica isso é o Dr. Alessandro Campolina, médico e professor de Oncologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e pesquisador do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).
O que diz a ciência sobre as terapias psicodélicas?
Estudos científicos defendem que as terapias psicodélicas são seguras, aplicadas com as fases adequadas e supervisão.
“Os estudos mostram que essas terapias, feitas com apoio profissional – um modelo que inclui preparação, suporte e integração – têm um grande potencial terapêutico e segurança”, defende o pesquisador.
Estudos da Johns Hopkins, por exemplo, evidenciam o potencial terapêutico da psilocibina para:
- Depressão e ansiedade em pacientes com câncer;
- Experiências místicas para sentido pessoal e espiritual;
- Mudanças no funcionamento psicológico e em traços pró-sociais;
- Tratamento do transtorno depressivo maior.
Quais são os principais usos terapêuticos dos psicodélicos?
Atualmente, as terapias psicodélicas demonstram potencial em algumas condições específicas:
- Depressão resistente e suicidalidade: importante indicação já que atende à necessidade de uma resposta rápida e eficaz em casos graves;
- Transtorno por uso de substâncias: uma indicação clássica, com estudos explorando o uso de substâncias como o LSD para tratar a dependência química;
- Cuidados paliativos em pacientes com câncer: especialmente para pacientes com angústia existencial, ansiedade e depressão resistente aos tratamentos convencionais. As terapias psicodélicas são aplicadas para promover bem-estar.
Além dessas aplicações clínicas bem estabelecidas, outras estão em investigação:
- Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT);
- Ansiedade generalizada;
- Dor crônica;
- Cessação do tabagismo;
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC);
- Transtornos alimentares.
Da Cetamina à Ibogaína: as principais substâncias em terapias psicodélicas
- Cetamina: aprovada e regulamentada para uso clínico no Brasil, é utilizada para depressão resistente, ideação suicida e cuidados paliativos.
- Ibogaína: apesar da importação permitida pela Anvisa, não é produzida no Brasil como fármaco. É útil em clínicas no tratamento de transtornos relacionados ao uso de substâncias.
- Psilocibina: encontrada em cogumelos, é alvo de estudo, analisando seus efeitos especialmente na depressão e ansiedade.
- MDMA: conhecido como ecstasy, tem potencial para o tratamento de TEPT;
- LSD: substância psicodélica clássica, pesquisada para ansiedade generalizada e outras condições.
- DMT (Dimetiltriptamina): principal componente da ayahuasca, bebida usada em contextos religiosos. No Brasil, seu uso terapêutico ainda está sendo pesquisado.
Qual a relação entre espiritualidade, autoconhecimento
e as terapias psicodélicas?
Essa relação tem raízes históricas. Há milênios, psicoativos foram usados em rituais, da Europa à Ásia, Índia e Grécia antiga. “Existem vários registros históricos de povos originários que usavam em cerimônia, em diversas regiões do mundo”, ressalta o Dr. Alessandro.
O especialista também explica que experiências místicas em terapia psicodélica podem trazer benefício terapêutico extra. “Por exemplo, pacientes com menores sintomas depressivos e uma sustentação maior dos efeitos terapêuticos”, explica o especialista.
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