A dor crônica, que atinge cerca de 30% da população mundial, é um dos principais fatores de morbidade. Por anos, os resultados foram insatisfatórios e insuficientes para aliviar o sofrimento dos pacientes e melhorar sua qualidade de vida.
Um marco histórico no manejo da dor foi a publicação da Escada Analgésica da Organização Mundial da Saúde (OMS). Pioneiro, o protocolo estabeleceu uma sistematização para o tratamento, representando um avanço significativo ao guiar a terapia por degraus.
Porém, a Escada possuía uma limitação grave: “Ela surgiu originalmente para tratar dor no contexto de um paciente com câncer (cuidados paliativos), mas ela foi generalizada para todo tipo de dor”, explica o Dr. Gabriel Taricani Kubota, Coordenador do Centro do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da USP.
Essa generalização foi um dos fatores que impulsionou a epidemia dos opioides. “Nem toda dor é igual, condições que geram dor crônica são muito diferentes entre si, então como você pode tratá-las da mesma forma?”, questiona o especialista.
Apesar disso, o protocolo abriu caminho para terapias mais estruturadas e eficazes.
Medicina moderna da dor crônica
Diante das falhas da abordagem generalizada, a medicina moderna transformou o tratamento. A dor crônica é agora reconhecida como uma família complexa de doenças, e não apenas um sintoma isolado, o que exige procedimentos diversificados e individualizados.
O novo paradigma começa com o diagnóstico.“O movimento da medicina de dor atual é reconhecer a pluralidade das condições de dor crônica. Um exemplo disso é a 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID-11) que foi publicada e está sendo incorporada nos sistemas de saúde”, avalia o Dr. Gabriel.
A CID-11 classifica a dor crônica em diferentes categorias, facilitando o entendimento e o diagnóstico clínico mais detalhado.
O tratamento evita soluções exclusivamente farmacológicas e inclui opções como fisioterapia e procedimentos de média complexidade, a exemplo de bloqueios e pequenas intervenções cirúrgicas.
“Para a dor musculoesquelética, como a lombalgia, a ênfase é o tratamento não farmacológico. Se você não tem como disponibilizar isso, você não está entregando a primeira linha terapêutica. Você já falhou”, argumenta o Coordenador do Centro do Departamento de Neurologia do HCFMUSP.
Tecnologias e tendências no tratamento da dor crônica
O tratamento da dor crônica acompanha a revolução da medicina, que otimiza recursos e garante respostas mais eficazes. Conheça as inovações na área e os benefícios para sua prática clínica!
Inteligência artificial
A Inteligência Artificial (IA) tem potencial de auxiliar no tratamento da dor por meio da predição de resposta terapêutica. Ela tem a capacidade de processar um grande volume de dados (como histórico e genética) para auxiliar o especialista a escolher o caminho terapêutico com maior probabilidade de eficácia para cada paciente.
Embora os sistemas que permitem essa precisão sejam promissores, o Dr. Gabriel pontua: “Essa estrutura ainda não possui validação clínica. Atualmente, ela é tratada principalmente como um campo de pesquisa”.
Neuromodulação
A neuromodulação para dor crônica pode contribuir utilizando primariamente dois métodos não invasivos: estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr) e a estimulação elétrica transcraniana por corrente contínua (ETCC).
“Essas formas de tratamento têm ganhado espaço na literatura científica, apoiadas por décadas de pesquisa. O volume de estudos tem aumentado, e as evidências apontam para benefícios em algumas condições”, argumenta o neurologista.
O avanço na área é notável. “A estimulação magnética transcraniana repetitiva foi incluída, pela primeira vez em uma diretriz, em 2025 como terceira linha terapêutica para dor neuropática. Está, portanto, consolidada como recomendação formal”, diz.
Outra alternativa com estudos robustos é a neuromodulação para fibromialgia. Por outro lado, condições como a Síndrome Dolorosa Complexa Regional e certas dores musculoesqueléticas também apresentam pesquisas favoráveis, embora o tratamento para essas condições não esteja completamente consolidado.
Medicina de precisão e terapia genética
Com a medicina de precisão e terapia genética, poderia ser possível reconhecer os pacientes com mais preditores de resposta e identificar o tratamento que poderia ser mais eficaz.
“Isso tem um valor significativo, tanto do ponto de vista do paciente, para otimizar os resultados, como também em termos de saúde pública, de gastar menos recursos para acertar o tratamento”, observa.
A possibilidade, porém, ainda está em estudo e não faz parte da rotina dos especialistas de forma rotineira, mas tem crescido na literatura científica.
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