mulher com depressão resistente

 

A Depressão Resistente a Tratamentos (DRT) é um transtorno de humor, sendo considerada uma variação grave do Transtorno Depressivo Maior (TDM). Neste texto, aprenda a identificar o quadro e os tratamentos mais inovadores, de neuromodulação a inteligência artificial. 

 

Pseudo-resistência: o que atrapalha o tratamento da depressão? 

Para entender a depressão resistente, primeiro devemos diferenciar a pseudo-resistência – quando fatores específicos quebram a eficácia do tratamento. Entre os sabotadores de resultados estão: 

  • Dosagem inadequada (adesão parcial): tomar menos remédios por receio, ou utilizar doses maiores na pressa em reduzir os sintomas da depressão. Doses menores podem não apresentar resposta satisfatória e, em caso de superdosagem, apresentam risco de intoxicação.

  • Não adesão terapêutica: não tomar os remédios por acreditar numa melhora espontânea, baseada na força de vontade, ou desconfiança do tratamento.

  • Comorbidades não tratadas: o paciente tem outras doenças além da depressão sem o devido tratamento, podendo ser condições psiquiátricas, como transtorno de ansiedade generalizada e dependência química, ou doenças clínicas – endócrinas, como o hipotireoidismo, por exemplo.
 
  • Tratamentos de outras doenças: os efeitos colaterais de medicamentos indicados para outras doenças podem se manifestar como transtornos de humor. Por exemplo, o uso de corticoides está associado ao desenvolvimento de sintomas como depressão e astenia (perda de força/energia).

Dr. Frederico Navas Demetrio, psiquiatra e coordenador do Programa de Transtornos Afetivos (PROGRUDA) do Hospital das Clínicas da USP,  faz um alerta: “Antes de classificar como depressão resistente a tratamentos, é necessário investigar e afastar todos os fatores que podem contribuir para a falha terapêutica”.

 

O que é depressão resistente?

 A depressão resistente se caracteriza quando o paciente não apresenta remissão dos sintomas após duas tentativas completas e adequadas de tratamento com antidepressivos distintos.

“O paciente usou o antidepressivo A por pelo menos oito semanas; sendo que, desse total, quatro semanas foram mantidas na dose máxima. Em seguida, utilizou o antidepressivo B pelo mesmo esquema”, elucida o especialista.

Ele ressalta ainda que, geralmente, os pacientes respondem bem aos tratamentos; porém, além da depressão resistente, o transtorno de humor pode evoluir para depressão refratária. “Ou seja, mesmo usando estratégias não farmacológicas, o paciente não apresenta remissão do episódio depressivo”, completa. 

 

Inovações no tratamento para depressão resistente: cetamina, EMT e o futuro da neuromodulação

Quando as primeiras linhas de tratamento não apresentam resultados satisfatórios para o transtorno de humor ou em casos de depressão grave, terapias de neuromodulação, intervenções não farmacológicas e prescrição off-label podem ser uma alternativa.

“Em um quadro de ideação suicida ou depressão psicótica, com delírios e alucinações referentes ao quadro depressivo, você precisa de uma resposta mais rápida”, analisa Dr. Frederico. 

Confira as principais opções para estes transtornos de humor. 

 

Terapias de neuromodulação

Estimulação Magnética Transcraniana: utilizada para estimular áreas do cérebro do paciente por meio de campos magnéticos. Geralmente, é indicada para potencializar o uso de medicação.

Infusão de cetamina: (aplicação intranasal ou por infusão): a cetamina atua modulando o sistema glutamatérgico da fisiopatologia da depressão. O uso deve ser concomitante com outras medicações e realizado com observação de especialistas em unidades de saúde capacitadas. A resposta ao tratamento pode ser perceptível na primeira semana de uso. 

Eletroconvulsoterapia: técnica que induz convulsão controlada, por meio de eletrodos e impulsos elétricos. O procedimento é realizado em unidades de saúde sob anestesia, com monitoramento contínuo dos sinais vitais. É a única das três que pode ser usada isoladamente, sem a associação de medicamentos.

O uso dessas alternativas deve ser criterioso. “São três estratégias de resgate, para retirar o paciente do quadro mais agudo. Depois, ele pode fazer a manutenção com essas estratégias, mas normalmente se usa manutenção com medicação sozinha ou associada”, esclarece o psiquiatra. 

 

Neuromodulação extrema: Estimulação do Nervo Vago e Estimulação Cerebral Profunda 

As terapias de neuromodulação mais extremas são consideradas invasivas, pois utilizam neurocirurgia para o implante de componentes. Em uma delas a inserção dos eletrodos é feita diretamente no cérebro. Confira: 

  • Estimulação do Nervo Vago: gerador de pulso implantado abaixo da clavícula para estimular o nervo vago e suas conexões cerebrais. O tratamento modula a atividade de neurotransmissores e estruturas ligadas ao humor.
  • Estimulação cerebral profunda: neurocirurgia com inserção de eletrodo em determinadas áreas do cérebro para auxiliar a resposta ao tratamento. Última linha para casos de depressão refratária muito grave.

 

Psicoterapia, off-label, antipsicóticos e terapias psicodélicas

Se o paciente apresentar resposta parcial ao tratamento do transtorno de humor, a psicoterapia é um potencializador importante. 

Há ainda prescrições medicamentosas consideradas off-label, ou seja, sem recomendação formal na bula, mas com respaldo em estudos clínicos.

Entre os medicamentos psicoativos potencializadores, há opções como Brexpiprazol e Quetiapina. “Alguns antipsicóticos, em geral, em doses bem baixas, potencializam comprovadamente a ação do antidepressivo”, indica o Dr. Frederico.  

Há também as terapias psicodélicas, que utilizam substâncias específicas para auxiliar nos processos psicoterapêuticos; há necessidade de mais estudos a respeito dessa alternativa.

 

Inteligência artificial na psiquiatria 

O especialista indica que as pesquisas mais promissoras de inteligência artificial para depressão resistente e outros transtornos de humor estão focadas no diagnóstico. 

Principais aplicações da IA:

  • Refinamento diagnóstico: a inteligência artificial na psiquiatria pode realizar entrevistas com os pacientes e analisar características fenomenológicas (evidências observáveis no exame psíquico), detectando sutilezas que podem passar despercebidas em uma entrevista clínica tradicional.
  • Predição de resposta individualizada: as diretrizes de tratamento atuais para depressão, focadas na experiência clínica e em estudos, ainda operam sob a lógica de tentativa e erro. A questão é: a inteligência artificial será capaz de prever as melhores indicações terapêuticas para cada paciente, superando esse modelo?

“Por exemplo, considerando-se as características clínicas iniciais e a resposta parcial ao tratamento, seria mais eficaz o uso de lítio em vez de um antipsicótico como estratégia de potencialização?”, sugere.

Vale o alerta: embora a tecnologia seja objeto de diversos estudos, ela ainda não está consolidada na psiquiatria brasileira. 

 

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