A neuropsiquiatria é a intersecção entre a neurologia e a psiquiatria. A área é um marco na medicina, pois permitiu avaliar o paciente de forma holística, diagnosticar e tratar as alterações comportamentais associadas a condições neurológicas e vice-versa.
Como a Dra. Inah Carolina Galatro Faria Proença explica que “a neuropsiquiatria considera que as doenças psiquiátricas não estão apenas relacionadas a aspectos psicossociais, mas também a disfunções e alterações lesionais orgânicas cerebrais”.
Essa visão abriu caminho para diagnósticos mais precisos e prognósticos ainda melhores. Exemplo disso é o protocolo PANDAS/PANS (Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated with Streptococcal Infections).
Nesses casos, uma infecção comum, como uma simples dor de garganta por estreptococo, pode provocar uma reação autoimune nos gânglios basais do cérebro. Isso pode gerar o surgimento de sintomas obsessivo-compulsivos, tiques e irritabilidade extrema em crianças.
Sem o olhar neuropsiquiátrico, o paciente seria tratado com psicoterapia ou psicofármacos convencionais, que agem apenas nos sintomas. Porém, o manejo adequado exige o uso de antibióticos e imunomoduladores para o tratamento da causa orgânica dos sintomas psiquiátricos e os levar à remissão.
Qual a história da neuropsiquiatria?
A origem da neuropsiquiatria pode ser considerada junto à psiquiatria moderna. Neurologistas como Freud, Charcot e Jeannet, já estudavam o comportamento humano.
Com o crescimento do conhecimento médico, psiquiatria e neurologia se dividiram. Porém, evidências científicas demonstram a indissociabilidade entre mente e cérebro. No Brasil, um dos grandes centros de referência na área é o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da USP (IPQ) – parte do maior complexo hospitalar da América Latina.
“A neuropsiquiatria está nesse campo do diagnóstico certo: é melhor demorar mais para ter um diagnóstico preciso do que tratar sem saber o que o paciente realmente tem”, afirma a especialista.
A evolução da Neuropsiquiatria e principais achados
A especialidade tem experimentado um crescimento significativo, impulsionada pela superação de estigmas e por avanços tecnológicos. Conheça alguns dos casos:
Era | Exemplo | Impacto na ciência |
Clássica (Séc. XIX) | Phineas Gage (crânio perfurado por uma barra de ferro) | Provou que o lobo frontal influencia diretamente na personalidade e comportamento social |
Moderna (Séc. XX) | Paciente HM (Hipocampo) | Demonstrou que a memória não é um bloco único, dividindo-se em sistemas de curto e longo prazo. |
Contemporânea (Pós-2020) | Encefalite Anti-MOG e p-tau217 | Revelou que psicoses e demências podem ter causas inflamatórias tratáveis, detectáveis por gotas de sangue. |
Embora a neuropsicologia tenha acumulado inúmeros progressos, vale ressaltar as seguintes descobertas:
- Redefinição das Doenças Neurológicas Funcionais (DNF): o termo “histeria” foi deixado para trás. Hoje, elas são entendidas como distúrbios na “rede de conectividade” do cérebro. O foco mudou de “algo na cabeça do paciente” para é um “problema real de processamento de sinais”.
- Revolução Diagnóstica com o Vídeo-EEG: embora disponível desde a década de 1980, o aperfeiçoamento e a maior acessibilidade do vídeo-EEG tornaram-se o “padrão-ouro” para distinguir com precisão crises epilépticas de Crises Não-Epilépticas Psicogênicas (CNEP). Ou seja, evitar que pacientes sejam tratados erroneamente com altas doses de anticonvulsivantes.
- Impacto das Redes Sociais e “TikTok Tics”: fenômenos recentes demonstraram como fatores sociais e ambientais são capazes de gerar sintomas neurológicos funcionais. O surgimento de tiques em jovens expostos a conteúdos específicos na internet destacou a necessidade de um olhar neuropsiquiátrico para entender a influência da cultura na biologia.
Principais condições tratadas pela neuropsiquiatria
Entre os quadros mais comuns que um neuropsiquiatra avalia, estão:
- Epilepsia e crises não epilépticas psicogênicas;
- Transtornos neurológicos funcionais: condições em que os sintomas neurológicos são reais – como fraqueza, tremores, formigamentos ou desmaios – mas não há dano estrutural visível no cérebro ou nervos;
- Alterações comportamentais associadas a doenças neurológicas, como demência esclerose múltipla, traumas cranianos e AVC;
- Quadros complexos psiquiátricos e neurológicos associados.
A intersecção das duas áreas – psiquiatria e neurologia – não é perfumaria. Sem os dois conhecimentos, podem ser receitados tratamentos inadequados com danos sérios, incluindo uso desnecessário de medicamentos fortes, cirurgias não indicadas e complicações graves.
“Já vimos pacientes serem intubados, fazerem traqueostomia, ou passarem por cirurgias desnecessárias por falta desse conhecimento. Às vezes, o prejuízo não vem por má-fé, mas por excesso de vontade de ajudar o paciente – e por desconhecimento”, relata a Dra. Inah Carolina.
Abordagem diagnóstica e desafios em neuropsiquiatria
O diagnóstico em neuropsiquiatria envolve:
- História clínica detalhada, exame físico completo (somático e neurológico) e exame do estado mental completo (cognição e funções mentais complexas);
- Integração entre neurologia e psiquiatria, com discussões multidisciplinares;
- Exames complementares, como vídeo-EEG, ressonância magnética e avaliações laboratoriais;
- Treinamento do olhar clínico para diferenciar patologias neurológicas de alterações psicogênicas.
Considerando-se os desafios da área, podemos listar:
- Escassez de profissionais especializados, especialmente fora de grandes centros urbanos;
- Complexidade dos casos, que exigem conhecimento tanto em psiquiatria quanto em neurologia;
- Riscos de diagnóstico incorretos, que podem levar a complicações graves.
Ter formação em neuropsiquiatria ajuda o médico a atender pacientes em áreas com menos recursos, identificar quando é necessário encaminhar a um especialista e reduzir erros clínicos.
“Não se aprende neuropsiquiatria nos livros; esse olhar é construído na prática, no dia a dia com os pacientes”, conclui a profissional.
Formação médica: como se especializar em neuropsiquiatria?
No Brasil, a formação em neuropsiquiatria é pioneira e oferecida por centros como o IPQ, parte do maior complexo hospitalar da América Latina.
No curso de Especialização em Neuropsiquiatria, o aluno tem a acesso a:
- Treinamento em ambulatório e enfermaria especializada, onde os médicos acompanham casos complexos;
- Discussões clínicas em grupo, integrando neurologistas e psiquiatras;
- Exposição a tecnologias como vídeo-EEG para avaliação precisa;
- Acesso à literatura científica e manuais práticos, com livros lançados pelo grupo que unificam conhecimento nacional.
Mesmo para médicos que não desejam se tornar neuropsiquiatras, essa formação amplia a capacidade de diagnóstico e tratamento, permitindo que cuidem melhor de seus pacientes e evitem intervenções desnecessárias ou prejudiciais.
Conheça o curso de Especialização em Neuropsiquiatria do IPQ-USP e transforme sua prática clínica!
