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O avanço das apostas online e os riscos associados ao transtorno do Jogo preocupam autoridades e profissionais de saúde, e não é por acaso. O volume destinado pelos brasileiros às chamadas bets cresceu significativamente: 

 

Estas são apenas algumas das evidências que colocam as apostas como um dos temas de saúde pública mais discutidos dos últimos anos. O cenário do transtorno do jogo acende um alerta não apenas econômico, mas também de saúde mental. 

Para entender a dimensão do problema, trazemos a perspectiva do psiquiatra Hermano Tavares, que fundou em 1998 o Ambulatório do Jogo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).

O que é o transtorno do jogo e por que ele é comparado a uma dependência química?

O transtorno do jogo, ou ludopatia, é um problema de saúde reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1980 – o  CID-11 Transtorno do Jogo (6C50). Inclusive, a doença faz parte do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)  e é listada em Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos. 

Apostar ativa o cérebro de forma semelhante ao consumo de substâncias. Por exemplo, o álcool é um formador de hábito porque o primeiro efeito, ao ser consumido, é o desejo de beber mais, e o mesmo mecanismo psicológico se repete no jogo. 

“O ato de apostar é um mecanismo psicológico que ativa o sistema nervoso central de uma maneira muito parecida com o álcool, tabaco ou outras drogas”, afirma Hermano Tavares. Para ele, tratar a aposta como mercadoria comum é um erro, já que, diferente de um produto qualquer, ela desperta vontade crescente de consumo.

Por que estamos vivendo uma “segunda onda” do vício em apostas? 

O Brasil já enfrentou uma primeira epidemia de jogo nos anos 1990, ligada à popularização do vídeo-bingo, o que levou à proibição da modalidade em 2004.

Hoje, o cenário é outro: as apostas estão disponíveis a qualquer hora e lugar, e o acesso digital ampliou proporcionalmente o risco de desenvolvimento do transtorno do jogo.

“Depois da popularização das apostas esportivas e das apostas online, de uma maneira geral, nós estamos vivendo uma segunda e maior onda. Eu diria que estamos no meio do tsunami”, resume o psiquiatra. 

Ele destaca que o smartphone eliminou qualquer barreira física para apostar: “Você não precisa mais sair de casa. O cassino é apenas a dois cliques de distância, ou a distância exata do seu braço até o bolso da calça”, explica o especialista.

Como realizar o diagnóstico do transtorno do jogo?

O diagnóstico de transtorno do jogo segue os critérios do DSM-5 – presença de ao menos quatro de nove comportamentos característicos em um período de 12 meses: 

  1. Necessidade de apostar quantias crescentes de dinheiro para sentir a excitação desejada;
  2. Irritabilidade ou inquietação ao tentar parar ou reduzir o jogo;
  3. Tentativas repetidas e fracassadas de parar ou controlar o comportamento de jogo;
  4. Pensamentos frequentes sobre o jogo, incluindo o planejamento de apostas futuras e o cálculo de como obter dinheiro para isso;
  5. Apostar após situações de estresse ou quando está se sentindo desconfortável (ansioso, deprimido ou culpado);
  6. Tentar recuperar perdas financeiras por meio de mais apostas;
  7. Mentir para esconder o envolvimento com o jogo;
  8. Prejudicar relacionamentos, trabalho ou outras áreas importantes da vida devido ao jogo;
  9. Recorrer a outras pessoas para obter dinheiro com o objetivo de aliviar uma situação financeira difícil desencadeada pelo jogo.

Autoexclusão: auxílio ao tratamento

A autoexclusão é um recurso de saúde pública com potencial de uso complementar no manejo clínico do transtorno do jogo, e merece ser conhecida e indicada por médicos que atendem esse perfil de paciente.

Atualmente, quase 700 mil pessoas já utilizaram a ferramenta de autoexclusão em plataformas de apostas online licenciadas no Brasil.

A ferramenta é ofertada pelo Ministério e permite ao cidadão bloquear o próprio acesso a plataformas de apostas licenciadas no país mediante cadastro com CPF. 

Uma limitação relevante para orientação clínica: o bloqueio não alcança plataformas ilegais ou sediadas fora do país.

Ao se cadastrar, o usuário é direcionado a uma autoavaliação de três perguntas, desenvolvida a partir de pesquisas:

  1. Há perda de controle frequente ao apostar (valor ou tempo acima do planejado)?
  2. Há comportamento de “recuperação de perdas” (apostar novamente após perder, buscando reaver o prejuízo)?
  3. O comportamento de apostar já gerou conflito com os próprios valores do paciente?

 

“Se o paciente responder sim para pelo menos uma dessas três perguntas, ele tem mais de 90% de chance de cair no espectro do jogo problemático” , elucida Hermano Tavares. 

“Jogo responsável” é um conceito real ou apenas marketing?

O termo “jogo responsável”, usado por operadoras de apostas em suas campanhas, é problemático ainda mais pela relação das apostas online e seu impacto na saúde mental. 

De acordo com o especialista, a expressão funciona como uma forma de transferir a responsabilidade do problema exclusivamente para quem aposta. “Jogo aposta responsável é o que a gente chama de oxímoro. É tipo subir para baixo e descer para cima. É uma contradição. Você quer ser responsável? Não aposte”, afirma.

Ele defende que a responsabilidade deveria ser dividida em três frentes: do apostador, do Estado (que precisa informar, regular e oferecer tratamento) e do provedor do serviço.

Quem são as pessoas mais vulneráveis às apostas online?

O fator determinante não é a idade, a cor ou a religião de quem aposta, mas a mudança dos apelos culturais e da publicidade.  

Os tradicionais bingos, por exemplo, atraíam pessoas de cerca de 40 anos, vendidos como brincadeira entre a família. Já as apostas online, as bets, trazem um perfil mais jovem. “O perfil do apostador vai mudando de acordo com época e cultura”, comenta o psiquiatra. 

Dessa forma, o perfil de quem desenvolve transtorno do jogo também acompanha essa tendência.

As apostas esportivas realmente aumentaram os casos de dependência?

O marco temporal foi a regulamentação das apostas esportivas em 2018, seguida pela explosão de acessos durante a pandemia. A tributação do setor, no entanto, só começou em 2024.

“Hoje eles são 65% da demanda que a gente recebe”, afirma Tavares, referindo-se aos pacientes que chegam ao ambulatório do HCFMUSP motivados por apostas esportivas online. 

O transtorno do jogo pode levar ao suicídio?

Estudos revelam que o transtorno do jogo impacta a saúde mental, desde quadros de ansiedade, depressão e até suícidio

Segundo dados do  ambulatório do jogo do HCFMUSP, 15% dos pacientes que buscam tratamento já tentaram suicídio por causa das apostas, e 80% já pensaram na possibilidade em algum momento.

“Eu já fico imaginando aquele que tentou, conseguiu, então nunca vai chegar para tratamento. Essa é a primeira coisa que me impacta e me incomoda”, lamenta o especialista. 

O tratamento contra o vício funciona?

A resposta costuma ser positiva quando o paciente inicia o acompanhamento. Ele cita como exemplo o caso de um paciente que tentou o suicídio ainda jovem, após perder uma reserva financeira do pai em apostas, e hoje está bem.

“Tratar funciona, tratar resolve”, resume Tavares.

O modelo do ambulatório do HCFMUSP inclui:

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Voltado a psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e enfermeiros, o curso é ministrado pela equipe do Ambulatório de Transtornos do Jogo do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP, com mais de 20 anos de experiência clínica na área. 

A formação oferece um protocolo estruturado de intervenção para aplicação direta na prática clínica. 

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