O avanço das apostas online e os riscos associados ao transtorno do Jogo preocupam autoridades e profissionais de saúde, e não é por acaso. O volume destinado pelos brasileiros às chamadas bets cresceu significativamente:
- Aumento dos gastos: mais de 500% em apenas três anos – de menos de R$ 5 bilhões mensais, em 2023, para cerca de R$ 30 bilhões em março de 2026, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
- Adesão às apostas online: 19% dos usuários de internet afirmaram ter feito algum tipo de aposta nos três meses anteriores à entrevista, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) em dezembro de 2025.
- Piora da saúde mental e impacto econômico: o vício nas apostas online pode provocar R$ 38,8 bilhões em perdas econômicas e sociais por ano no Brasil. Deste total, mais de R$ 30 bilhões estariam relacionados a impactos na saúde, como perda de qualidade de vida, depressão, tratamento médico e suicídios. As estimativas foram elaboradas em uma parceria do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), a Umane e da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM).
Estas são apenas algumas das evidências que colocam as apostas como um dos temas de saúde pública mais discutidos dos últimos anos. O cenário do transtorno do jogo acende um alerta não apenas econômico, mas também de saúde mental.
Para entender a dimensão do problema, trazemos a perspectiva do psiquiatra Hermano Tavares, que fundou em 1998 o Ambulatório do Jogo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).
O que é o transtorno do jogo e por que ele é comparado a uma dependência química?
O transtorno do jogo, ou ludopatia, é um problema de saúde reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1980 – o CID-11 Transtorno do Jogo (6C50). Inclusive, a doença faz parte do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e é listada em Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos.
Apostar ativa o cérebro de forma semelhante ao consumo de substâncias. Por exemplo, o álcool é um formador de hábito porque o primeiro efeito, ao ser consumido, é o desejo de beber mais, e o mesmo mecanismo psicológico se repete no jogo.
“O ato de apostar é um mecanismo psicológico que ativa o sistema nervoso central de uma maneira muito parecida com o álcool, tabaco ou outras drogas”, afirma Hermano Tavares. Para ele, tratar a aposta como mercadoria comum é um erro, já que, diferente de um produto qualquer, ela desperta vontade crescente de consumo.
Por que estamos vivendo uma “segunda onda” do vício em apostas?
O Brasil já enfrentou uma primeira epidemia de jogo nos anos 1990, ligada à popularização do vídeo-bingo, o que levou à proibição da modalidade em 2004.
Hoje, o cenário é outro: as apostas estão disponíveis a qualquer hora e lugar, e o acesso digital ampliou proporcionalmente o risco de desenvolvimento do transtorno do jogo.
“Depois da popularização das apostas esportivas e das apostas online, de uma maneira geral, nós estamos vivendo uma segunda e maior onda. Eu diria que estamos no meio do tsunami”, resume o psiquiatra.
Ele destaca que o smartphone eliminou qualquer barreira física para apostar: “Você não precisa mais sair de casa. O cassino é apenas a dois cliques de distância, ou a distância exata do seu braço até o bolso da calça”, explica o especialista.
Como realizar o diagnóstico do transtorno do jogo?
O diagnóstico de transtorno do jogo segue os critérios do DSM-5 – presença de ao menos quatro de nove comportamentos característicos em um período de 12 meses:
- Necessidade de apostar quantias crescentes de dinheiro para sentir a excitação desejada;
- Irritabilidade ou inquietação ao tentar parar ou reduzir o jogo;
- Tentativas repetidas e fracassadas de parar ou controlar o comportamento de jogo;
- Pensamentos frequentes sobre o jogo, incluindo o planejamento de apostas futuras e o cálculo de como obter dinheiro para isso;
- Apostar após situações de estresse ou quando está se sentindo desconfortável (ansioso, deprimido ou culpado);
- Tentar recuperar perdas financeiras por meio de mais apostas;
- Mentir para esconder o envolvimento com o jogo;
- Prejudicar relacionamentos, trabalho ou outras áreas importantes da vida devido ao jogo;
- Recorrer a outras pessoas para obter dinheiro com o objetivo de aliviar uma situação financeira difícil desencadeada pelo jogo.
Autoexclusão: auxílio ao tratamento
A autoexclusão é um recurso de saúde pública com potencial de uso complementar no manejo clínico do transtorno do jogo, e merece ser conhecida e indicada por médicos que atendem esse perfil de paciente.
Atualmente, quase 700 mil pessoas já utilizaram a ferramenta de autoexclusão em plataformas de apostas online licenciadas no Brasil.
A ferramenta é ofertada pelo Ministério e permite ao cidadão bloquear o próprio acesso a plataformas de apostas licenciadas no país mediante cadastro com CPF.
Uma limitação relevante para orientação clínica: o bloqueio não alcança plataformas ilegais ou sediadas fora do país.
Ao se cadastrar, o usuário é direcionado a uma autoavaliação de três perguntas, desenvolvida a partir de pesquisas:
- Há perda de controle frequente ao apostar (valor ou tempo acima do planejado)?
- Há comportamento de “recuperação de perdas” (apostar novamente após perder, buscando reaver o prejuízo)?
- O comportamento de apostar já gerou conflito com os próprios valores do paciente?
“Se o paciente responder sim para pelo menos uma dessas três perguntas, ele tem mais de 90% de chance de cair no espectro do jogo problemático” , elucida Hermano Tavares.
“Jogo responsável” é um conceito real ou apenas marketing?
O termo “jogo responsável”, usado por operadoras de apostas em suas campanhas, é problemático ainda mais pela relação das apostas online e seu impacto na saúde mental.
De acordo com o especialista, a expressão funciona como uma forma de transferir a responsabilidade do problema exclusivamente para quem aposta. “Jogo aposta responsável é o que a gente chama de oxímoro. É tipo subir para baixo e descer para cima. É uma contradição. Você quer ser responsável? Não aposte”, afirma.
Ele defende que a responsabilidade deveria ser dividida em três frentes: do apostador, do Estado (que precisa informar, regular e oferecer tratamento) e do provedor do serviço.
Quem são as pessoas mais vulneráveis às apostas online?
O fator determinante não é a idade, a cor ou a religião de quem aposta, mas a mudança dos apelos culturais e da publicidade.
Os tradicionais bingos, por exemplo, atraíam pessoas de cerca de 40 anos, vendidos como brincadeira entre a família. Já as apostas online, as bets, trazem um perfil mais jovem. “O perfil do apostador vai mudando de acordo com época e cultura”, comenta o psiquiatra.
Dessa forma, o perfil de quem desenvolve transtorno do jogo também acompanha essa tendência.
As apostas esportivas realmente aumentaram os casos de dependência?
O marco temporal foi a regulamentação das apostas esportivas em 2018, seguida pela explosão de acessos durante a pandemia. A tributação do setor, no entanto, só começou em 2024.
“Hoje eles são 65% da demanda que a gente recebe”, afirma Tavares, referindo-se aos pacientes que chegam ao ambulatório do HCFMUSP motivados por apostas esportivas online.
O transtorno do jogo pode levar ao suicídio?
Estudos revelam que o transtorno do jogo impacta a saúde mental, desde quadros de ansiedade, depressão e até suícidio.
Segundo dados do ambulatório do jogo do HCFMUSP, 15% dos pacientes que buscam tratamento já tentaram suicídio por causa das apostas, e 80% já pensaram na possibilidade em algum momento.
“Eu já fico imaginando aquele que tentou, conseguiu, então nunca vai chegar para tratamento. Essa é a primeira coisa que me impacta e me incomoda”, lamenta o especialista.
O tratamento contra o vício funciona?
A resposta costuma ser positiva quando o paciente inicia o acompanhamento. Ele cita como exemplo o caso de um paciente que tentou o suicídio ainda jovem, após perder uma reserva financeira do pai em apostas, e hoje está bem.
“Tratar funciona, tratar resolve”, resume Tavares.
O modelo do ambulatório do HCFMUSP inclui:
- Psicoeducação: encontros em grupo para esclarecer o funcionamento do transtorno;
- Entrevista motivacional: para que o paciente decida se quer parar, reduzir ou manter as apostas de forma mais segura;
- Terapia cognitivo-comportamental: considerada hoje a abordagem mais recomendada;
- Medicação: usada principalmente para tratar comorbidades psiquiátricas, presentes em 75% dos casos;
- Grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos: apresentam índice de recuperação entre 60% e 70% entre quem permanece no grupo.
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A formação oferece um protocolo estruturado de intervenção para aplicação direta na prática clínica.
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