A cannabis medicinal é o uso da planta cannabis sativa e de seus derivados para tratar diversas condições de saúde, diante de comprovações científicas.

“É um grupo de substâncias, que assim como qualquer outro medicamento, entra no rol das possíveis escolhas do médico. Mas elas têm as suas peculiaridades”, explica o Prof. Dr. Renato Anghinah, Professor Livre Docente em Neurologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e médico neurologista do Hospital das Clínicas da USP (HCFMUSP).

Para ele, é preciso considerar três fatores: “Primeiro, as indicações precisas, como qualquer medicamento. Segundo, a origem – nenhum médico prescreve medicamentos sem ser de laboratórios confiáveis. E a terceira é que ele passa a ser uma opção a mais para o médico”, completa. 

Em outras palavras, a cannabis medicinal “não serve para tudo”, mas é mais uma alternativa terapêutica. 

Quais as evidências científicas sobre os benefícios?

Há estudos científicos que comprovam o efeito preciso da cannabis medicinal – ela não surge como uma solução para todas as doenças, mas como um tratamento possível para condições específicas.

Isso torna a área da cannabis medicinal de crescente interesse e pesquisa, já que tem o potencial de oferecer soluções terapêuticas personalizadas e mais eficazes.

Os diversos compostos presentes na planta interagem com o complexo sistema endocanabinoide do corpo,gerando respostas terapêuticas distintas, dependendo da condição médica. 

Na epilepsia, a cannabis medicinal pode modular a atividade neuronal e prevenir convulsões. Já no tratamento da dor neuropática, a abordagem é multifacetada, envolvendo o bloqueio dos sinais de dor e a redução da inflamação, mecanismos que podem trazer alívio onde outras terapias falharam. 

Quais doenças podem ser tratadas com cannabis medicinal?

De acordo com o especialista, há as zonas verde e cinza. 

A verde conta com quatro recomendações consolidadas para uso da cannabis medicinal.

Vale o lembrete: o tratamento deve ser sempre realizado com orientação médica, em pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais.

As doenças são: 

  • Epilepsia refratária e algumas síndromes neurológicas na infância: há estudos que demonstram a capacidade de derivados da cannabis para reduzir a frequência e a intensidade de crises epilépticas. Entre as doenças, estão a síndrome de Dravet, síndrome de Lennox Gastaut e síndrome de West;

  • Dor neuropática: evidências apontam para o potencial da cannabis em modular as vias de dor, proporcionando alívio para pacientes com essa condição debilitante;

  • Sundown Syndrome (Síndrome do Pôr do Sol) em pacientes com demência: agitação e confusão mental que ocorrem no final da tarde em pacientes com demências como o Alzheimer, a Sundown Syndrome têm encontrado na cannabis um possível aliado. 

“Não é um medicamento para evitar a progressão da doença de Alzheimer; é um produto que oferece auxílio considerável para os pacientes que têm a agitação e vigência de um quadro de demência”, explica o professor da FMUSP. 

Há outras com evidências científicas, mas ainda sem a chancela das associações, como ansiedade e autismo – em ambas, a cannabis medicinal teria efeito calmante, e não diretamente atuação na condição em si. “Não é a primeira escolha para o tratamento, mas é consenso que o canabidiol é extremamente ansiolítico, ou seja, diminui a ansiedade da maioria das pessoas. A Sociedade Brasileira de Psiquiatria não lançou uma nota considerando o uso, mas tem evidências científicas robustas sobre isso”, avalia. 

Zona cinza 

As doenças na zona cinza são aquelas para as quais existem evidências promissoras sobre o uso de cannabis medicinal, mas que ainda não têm suporte científico robusto o suficiente. 

As principais são:

  • Emagrecimento: devido a um subproduto da cannabis chamado THCV. Uma hipótese é que ele poderia atuar como regulador de apetite e glicemia, auxiliando no emagrecimento, sendo chamado de Ozempic natural. O especialista ressalta a necessidade de cautela e mais estudos em humanos que comprovem esse efeito;
  • Doença Inflamatória Intestinal: é possível que a cannabis tenha propriedades imunomoduladoras e anti-inflamatórias, sendo positivo para condições como a doença inflamatória intestinal. Ainda são necessários mais estudos para confirmar essa indicação;
  • Espasticidade: o THC demonstrou ser eficaz no tratamento da espasticidade, que é o aumento do tônus muscular que causa rigidez e dificuldade de movimento. 

Apesar de haver evidências significativas, essa indicação ainda não foi formalmente chancelada pela ABN: “Isso está na zona cinzenta, mas são uns ‘cinzentos esverdeados’”, avalia o especialista. Ele cita o exemplo da senadora Mara Gabrilli, que utiliza THC para tratar a espasticidade, gerada por um trauma raquimedular.

Por enquanto, podem prescrever a cannabis medicinal médicos e dentistas. “Isso está começando a ser revisto agora; talvez para o ano que vem, haverá a autorização para veterinário, mas neste momento não tem essa liberação”, explica o neurologista. 

Curso de cannabis medicinal e a importância da educação médica isenta

É fundamental que os cursos de formação médica sobre a cannabis medicinal sejam isentos de viés comercial ou ativismo, oferecendo informações seguras e baseadas em evidências. É isso que propõe a formação do HCX – o centro de aprendizagem do Hospital das Clínicas da FMUSP. 

A ideia é que os médicos possam prescrever cannabis medicinal com conhecimento e responsabilidade: “O curso vem para acabar com a ideia desses extremos, de que vale tudo ou não vale nada. A intenção, quando elaboramos o curso, foi unir tudo o que está comprovado pela ciência. Não estamos falando que serve para tudo, mas queremos desmistificar o preconceito”, afirma o Prof. Anghinah. 

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