Luto é o conjunto de sentimentos e comportamentos que surge diante da perda, seja de alguém ou algo significativo.
“A perda pode ser de um ente querido, relacionamento, imóvel ou de um bem muito importante para pessoa. Então, há sempre a perda de algo que vai ocasionar esses sentimentos”, avalia Ursula Silva Leopoldino, Psicóloga Hospitalar de Cuidados Paliativos no NACE (Núcleo Assistencial de Cuidados Especiais), que faz parte do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).
As fases do luto
Segundo Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra e estudiosa suíça, o luto pode ser dividido em cinco estágios.
Mas vale lembrar que o luto não é simples nem linear. “Quando falamos em fases, é mais de uma questão didática para compreendermos o processo, e não um checklist: ‘Ah, já passei por essa; então, em breve virá a próxima fase, e depois aquela’”, explica a psicóloga.
1 – Negação: choque inicial, no qual a pessoa nega a perda a que é exposta, funcionando como uma defesa contra a dor intensa.
“Falas como ‘isso não está acontecendo comigo’, ‘vocês estão mentindo para mim’, ‘eu tenho certeza de que não é isso que vocês estão me dizendo’, são comuns”, elucida a especialista.
2 – Raiva: quando a pessoa busca culpar alguém ou a si como “vilão” da situação.
“Essa agressividade vem de um movimento energético da dor. Não é uma raiva, necessariamente, do tipo ‘eu vou matar vocês’, mas sim uma expressão de que está doendo demais”, esclarece a psicóloga.
A raiva aparece porque a dor da perda é grande demais e, muitas vezes, sentida como um ataque. Por isso a expressão raivosa, como uma reação comportamental.
3 – Barganha (ou negociação): tentar reverter a perda ou minimizar a dor. Fase em que a pessoa pode pensar o que poderia ter sido diferente e criar cenários fantasiosos.
Em cuidados paliativos, é comum que a família negue a gravidade do estado do paciente. A profissional exemplifica a barganha: se o paciente, por exemplo, consegue comer uma pequena quantidade de iogurte, a família logo questiona: “Ele comeu, então ele está melhor, não está? Ele está melhorando, né? Porque você me disse que ele não ia comer mais, então ele comeu, então ele está melhor”.
4 – Depressão (ou tristeza): é a fase mais densa – profunda tristeza, falta de sentido na vida e dificuldade em seguir em frente. Normalmente é expressada com importante sofrimento existencial, tanto no paciente quanto em familiares.
5 – Aceitação: não é alegria ou conformismo pleno, mas sim assimilação da perda.
Nos cuidados paliativos, como analisa a psicóloga Ursula, “não é uma aceitação de ‘aceito de peito aberto que vou perder a pessoa que amo’, mas é de ‘tá, vai acontecer’”.
Manejo do luto
O manejo do luto deve buscar o acolhimento, considerando que as famílias podem estar mais tristes, reativas ou raivosas, diante da dor intensa. Para isso, a psicóloga recomenda:
- Acolhimento e escuta ativa: disponibilidade para ouvir as pessoas que passam pelo luto, e entender que a escuta é importante para o processo.
“Isso transcende a psicologia. Isso é de qualquer profissional. Parar para ouvir”, diz Ursula.
- Paciência: calma com o processo do outro, sem tentar acelerar a recuperação ou oferecer “palavras mágicas”. A reestruturação exige tempo.
O luto antecipatório nos cuidados paliativos
Quando o paciente entra em cuidados paliativos, a família vivencia o luto antecipatório.
“Auxiliamos a família a encontrar potência na impotência. Perguntamos: ‘O que você acha que seria interessante trazer? Quer trazer um desenho do neto? Quer que o neto grave um áudio para colocarmos no ouvido dele?’”, exemplifica Ursula.
Nesse processo, familiares e amigos conseguem se despedir, expressar amor e iniciar o processo de perda enquanto a pessoa continua em vida. O objetivo é que a família sinta a paz de ter feito o que era possível.
Sentimentos como raiva, tristeza e frustração são trabalhados e processados. Com isso, é esperado um luto mais fluido após a perda e, dentro do possível, mais tranquilo.
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