Você, nutricionista, mesmo com experiência, já se sentiu inseguro (a) ao lidar com a complexidade da nutrição materno-infantil? As recomendações mudam, a ciência evolui, e a pressão dos “gurus” da internet só aumenta o desafio.
Para te ajudar a esclarecer dúvidas, preparamos este guia completo. Confira as evidências científicas mais recentes sobre gestação e nutrição infantil.
O que é Nutrição Materno-Infantil e por que não se trata de “alimentos proibidos”?
A nutrição materno-infantil cuida da alimentação de gestantes, bebês e crianças, garantindo o crescimento e o desenvolvimento adequados para cada fase. Não se trata de “alimentos proibidos”; até mesmo opções saudáveis, quando consumidas em excesso, podem trazer prejuízos à saúde.
“O papel do especialista é identificar o padrão alimentar da família e realizar ajustes gradativos”, alerta Adriana Servilha Ganfoldo, nutricionista supervisora das Unidades de Internação no Instituto da Criança e do Adolescente do HCFMUSP.
Modismos, como “sucos detox na gravidez” e “dietas restritivas para bebês”, devem ser vistos com cautela; a nutrição materno-infantil exige embasamento científico.
Sucos detox na gravidez: não são uma solução mágica, mas em certos casos podem fazer parte do plano alimentar sem prejuízos ao bebê. A alimentação balanceada é sempre o melhor caminho. “A ingestão do suco detox deve ser avaliada individualmente”, reforça Adriana.
Dietas restritivas na gravidez: só devem ser recomendadas em situações de condições específicas, como alergias ou comorbidades, priorizando o crescimento e desenvolvimento do bebê.
É importante orientar seus pacientes sobre os cuidados ao consumir refeições fora de casa, incluindo delivery e restaurantes.
Quais são os riscos da restrição alimentar na gestação e infância?
A restrição alimentar na gestação e na infância não é recomendada, a menos que seja necessária devido a condição de saúde. “O grande risco são consequências no futuro, podendo levar a problemas psicológicos relacionados à alimentação”, ressalta a especialista.
Além dos impactos psicológicos, a má alimentação, por deficiência ou excesso, pode gerar:
- Desnutrição: falta de nutrientes essenciais para o desenvolvimento;
- Obesidade: muitas vezes por troca de alimentos nutritivos por ultraprocessados;
- Outras doenças: relação direta com o desenvolvimento de doenças crônicas ou deficiências.
Como avaliar nutricionalmente a gestante?
Na gestação, a nutrição materno-infantil adequada garante mais saúde para a mãe e para o bebê. Esse período é uma janela de oportunidade para promover saúde, prevenir riscos e favorecer um desenvolvimento adequado.
Confira indicadores que exigem atenção:
- Estado nutricional pré-gestacional e ganho de peso adequado;
- Histórico e hábitos de vida (como atividade física e sono, por exemplo), padrão alimentar e presença de queixas comuns (náuseas, azia, constipação, entre outras);
- Histórico clínico e fatores de risco, incluindo hipertensão e diabetes gestacional.
Como avaliar a nutrição infantil e lidar com desafios comuns?
Para avaliação nutricional infantil precisa, avalie o peso e estatura em relação às curvas de crescimento – confira os gráficos de crescimento no site da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
O profissional deve estar atento também ao histórico de hábitos alimentares, condição socioeconômica e alterações no apetite e ingestão alimentar.
Seletividade alimentar infantil grave: estratégias para superá-la
A seletividade é um dos principais desafios da nutrição infantil, mas é possível superá-la por meio de práticas estratégicas. Confira!
- Análise do Comportamento Aplicada à Alimentação (ABA Food Selectivity Protocols)
- Modelagem (Shaping): introdução gradual de alimentos, reforçando aproximações sucessivas: – olhar → tocar → cheirar → lamber → pequenas mordidas → porções maiores.
- Exposição repetida e sistemática: contato constante (10–15 vezes) sem pressão, para reduzir a aversão sensorial e emocional ao alimento.
- Reforçamento positivo: após comportamentos desejados (ex.: provar, aceitar na boca). Pode ser social (“muito bem!”), funcional (brinquedo), ou comestível (em alguns protocolos iniciais).
- Desvanecimento (Fading): alteração gradual da textura, cor, marca ou forma do alimento para aproximá-lo do “novo” que se deseja introduzir.
- Prompting e fading de prompt: uso de instruções, gestos ou modelagem oral, retirados progressivamente para aumentar a autonomia.
- Abordagem multissensorial
- Dessensibilização sensorial: exercícios envolvendo toque, cheiro, manipulação do alimento com as mãos e utensílios antes de comer.
- Exploração sensorial lúdica (food play): transformar o alimento em atividade lúdica (pintar com purês, montar figuras) para reduzir a ansiedade.
- Trabalho motor-oral: fortalecimento, mobilidade e coordenação dos músculos envolvidos na mastigação e deglutição.
- Treinamento de pais e/ou cuidadores
Estratégias:
- Reforço positivo;
- Manejo de comportamentos de recusa (gritos, fuga, engasgos comportamentais);
- Rotina de refeições e modelagem (pais comem os alimentos que desejam introduzir).
- Tratamento multidisciplinar
Os terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos são importantes, principalmente quando há hipersensibilidades sensoriais, dificuldades orais ou aversão intensa à textura, ressalta a nutricionista Adriana.
- Atuação do nutricionista
A atuação contínua do nutricionista envolve melhorar ou manter o estado nutricional enquanto o repertório é ampliado:
- Planejamento de cardápio: baseado no mapa alimentar para que a criança se mantenha nutrida enquanto amplia repertório;
- Enriquecimento calórico/protéico: quando há perda de peso ou restrição severa;
- Substituições alimentares seguras: para evitar deficiências nutricionais.
Papel do nutricionista na alimentação infantil
A orientação alimentar da criança e família visa ajudar a criança a desenvolver autonomia alimentar, ampliar seu repertório sem medos, promover experiências positivas e prazerosas com os alimentos.
“A nutrição infantil não se limita à prescrição dietética, mas é parte fundamental do processo psicológico-comportamental da alimentação”, pondera a Supervisora das Unidades de Internação no ICr HCFMUSP.
O nutricionista deve auxiliar os responsáveis a banir certos comportamentos e posturas. Frases como “você é difícil de comer” e “só sai da mesa se comer tudo” aumentam a ansiedade da criança e podem sabotar o processo.
Como mediador, o especialista também facilita escolhas alimentares, respeitando o perfil sensorial e emocional da criança e estabelece práticas que respeitam o ritmo de aceitação para reduzir o risco de rejeição permanente.
Entre as técnicas práticas para nutrição infantil estão:
- Oferta do mesmo alimento de formas diferentes;
- Técnica de “cadeias alimentares” (“Food chaining”) que introduz alimentos similares aos favoritos da criança, com objetivo de expandir o repertório sem rejeição;
- Adaptação gradual de texturas do alimento;
- Porções pequenas para reduzir ansiedade;
- Sugestões para a rotina de refeições.
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