Medicina_Canabinoide_indicações

O termo Medicina Canabinoide pode até ser recente, mas o uso de canabinoides com fins terapêuticos já existia na Antiguidade. Naquela época, porém, não havia conhecimento do sistema endocanabinoide nem indicações baseadas em evidências científicas robustas como as atuais, mas ainda assim já se observavam usos terapêuticos empíricos.

No Brasil, o primeiro uso documentado foi em 2014, por Anny Fischer, de 5 anos, que sofria com quadros de epilepsia refratária. A partir disso, os estudos se intensificaram, levando à regulamentação da cannabis medicinal no país. 

Para esclarecer o tema, preparamos este especial, explicando desde o que é Medicina Canabinoide até suas indicações, o papel do médico e como se qualificar para uma prática médica segura.

Compartilhe com outros profissionais de saúde e impulsione o uso responsável da substância, sempre baseado em evidências científicas e sem viés de ativismo. 

O que é Medicina Canabinoide?

Medicina Canabinoide é o estudo de uso de produtos derivados da Cannabis sativa para fins medicinais. As substâncias mais utilizadas são o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC). 

“É um grupo de substâncias, que assim como qualquer outro medicamento, entra no rol das possíveis escolhas do médico. Mas elas têm as suas peculiaridades”, explica o Prof. Dr. Renato Anghinah, Professor Livre Docente em Neurologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e médico neurologista do Hospital das Clínicas da USP (HCFMUSP). 

Os efeitos no corpo humano diferem dos da maconha recreativa, por exemplo. Enquanto o uso recreativo pode apresentar potencial de risco, os medicamentos derivados de canabinoides são estudados em contextos clínicos controlados, com perfil de segurança e eficácia.

Assim, é preciso considerar ao menos três aspectos ao recomendar medicamentos derivados da Cannabis sativa: 

  1. Indicações precisas: como qualquer medicamento, seguindo os usos recomendados e com evidências científicas que justifiquem a escolha.
  2. Origem: todo medicamento deve ser proveniente de laboratórios confiáveis.
  3. Uso: uma alternativa a mais para o médico, e não um ‘super remédio’ indicado em qualquer circunstância. 

Saiba como conseguir o medicamento.

Como surgiu a Medicina Canabinoide?

A Medicina Canabinoide surgiu da combinação entre o uso histórico da Cannabis sativa para fins terapêuticos e o avanço da ciência moderna que passou a entender seus mecanismos de ação no corpo humano.

Desde a Antiguidade, registros na China, Índia e Oriente Médio já descreviam a cannabis como tratamento para dor, convulsões e inflamações. No século XIX, médicos como William O’Shaughnessy documentaram seus efeitos anticonvulsivantes.

A base moderna da Medicina Canabinoide, porém, começa no século XX, especialmente com o pesquisador Raphael Mechoulam. Nas décadas seguintes, a descoberta do sistema endocanabinoide mostrou por que a planta tem efeitos no organismo. 

A década de 1980 foi marcante, com um aumento significativo de estudos, consolidando a aplicação científica e clínica de medicamentos derivados da Cannabis sativa.

Qual é o papel do sistema endocanabinoide? 

O sistema endocanabinoide é um conjunto de comunicação do corpo formado por receptores, endocanabinoides e enzimas. Ele funciona como um regulador de diversas funções fisiológicas, como dor, apetite, memória, sono e imunidade.

“A concepção desse sistema se iniciou na década de 1950, mas sua descrição mais precisa começou a se desenvolver a partir dos anos 80”, elucida o neurologista. 

Os endocanabinoides são produzidos de acordo com a necessidade e atuam como mensageiros, modulando a liberação de neurotransmissores no sistema nervoso. 

O CB1 predomina no sistema nervoso central e também em órgãos digestivos; e o CB2 na regulação da imunidade e da inflamação. A cannabis contém fitocanabinoides, como o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC), que interagem com esse sistema e, a partir disso, geram efeitos terapêuticos e psicoativos.

Em quais condições é utilizada?

A Medicina Canabinoide possui indicações para diferentes condições clínicas, que podem ser organizadas em dois grupos: zona verde (uso com maior respaldo científico e clínico) e zona cinza (uso ainda em investigação). 

Zona verde

 

Há também condições como ansiedade e autismo, com evidências científicas em crescimento, mas ainda sem consenso médico. Nestas, os canabinoides atuam principalmente no controle de sintomas, e não na causa das doenças. 

“Não é a primeira escolha para o tratamento, mas é consenso que o canabidiol é extremamente ansiolítico, ou seja, diminui a ansiedade da maioria das pessoas. A Sociedade Brasileira de Psiquiatria não lançou uma nota considerando o uso, mas tem evidências científicas robustas sobre isso”, avalia o professor. 

Zona Cinza

Os principais estudos incluem:

Você pode conferir mais informações sobre quais doenças a Medicina Canabinoide é recomendada no blog especial. 

Qual é o papel do médico na Medicina Canabinoide?

O papel do médico na Medicina Canabinoide é amplo e necessário – sua atuação pode determinar o sucesso ou o fracasso do tratamento. 

De forma geral, o acompanhamento segue alguns passos: 

  1. Avaliação clínica completa e indicação: o médico avalia desde o diagnóstico, histórico do paciente e tratamentos já realizados ou não. Depois, investiga a força das evidências científicas para a condição.
  2. Escolha do tipo de canabinoide, prescrição e acompanhamento: definir se o tratamento será com CBD, THC ou combinação, além da via de administração. É importante prescrever a dose inicial adequada para cada caso. No acompanhamento, é preciso medir as doses e observar os efeitos adversos, interações medicamentosas e eficácia.
  3. Análise dos efeitos colaterais e interação com outros medicamentos: como é comum em qualquer medicamento, o canabidiol pode produzir efeitos colaterais. Geralmente, conforme a literatura clínica já produzida, os sintomas são leves, como sonolência, tontura, mal-estar generalizado, diarreia e tremores. Em casos específicos que fogem à regra, o especialista poderá alterar as doses conforme a resposta do organismo.

Diferença do uso terapêutico x uso não médico

A diferença do uso terapêutico e do uso não médico da Cannabis sativa tem relação com finalidade e acompanhamento. 

No uso terapêutico, os canabinoides são utilizados em formulações desenvolvidas para uso medicinal, com controle de qualidade, padronização da composição, definição de doses e acompanhamento profissional. 

Já nos usos não médicos, como o recreativo, geralmente não há o mesmo controle sobre a composição, concentração dos compostos ou quantidade consumida, o que pode aumentar os riscos de efeitos indesejados e prejuízos à saúde. 

“A quantidade de tetra-hidrocanabinol (THC) nos remédios é de 0,3%. No cigarro de maconha, pode ter de 5% a 15%, mas pode chegar em alguns casos a 30%”, exemplifica o Prof. Dr. Renato Anghinah.

Como se qualificar na área?

O HCX Fmusp – centro de ensino do Hospital das Clínicas da USP – desenvolveu o curso de Medicina Canabinoide. Com rigor científico e respaldo do maior hospital da América Latina, a formação amplia o conhecimento sobre os produtos medicinais à base de Cannabis, explicando desde a origem até a correta indicação terapêutica e acompanhamento. 

“O curso não tem viés comercial ou ativismo canábico e sempre vai fornecer as informações que são relevantes do ponto de vista científico”, explica o coordenador e especialista, Dr. Renato Anghinah. 

Inscreva-se no curso de “Medicina Canabinoide: Abordagem Baseada em Evidências Científicas” ou deixe seu e-mail ao fim da página para aviso imediato de novas turmas.