A saúde mental infantil é um dilema urgente da atualidade. Evidência disso é o aumento de 6% ao ano na taxa de suicídios entre jovens brasileiros de 10 a 24 anos na última década, superando o crescimento médio geral de 3,7% ao ano.
 
Os dados são de estudo publicado na The Lancet Regional Health – Americas, em uma parceria do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e pesquisadores de Harvard.
 
“Os jovens estão sofrendo como adultos; a saúde emocional dos adolescentes emergiu com uma preocupação muito atual e intensificada entre os profissionais de saúde porque a gente teve momentos significativos dos indicadores de saúde mental, como ansiedade, depressão e estresse”, esclarece o Prof. Dr. Benito Lourenço, Médico que Chefia a Unidade de Adolescentes do Instituto da Criança e do Adolescente – ICr HCFMUSP.
 
Mas apesar de ser vista como idade da inocência, a infância também merece atenção: 75% dos transtornos mentais começam nesta fase, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Negligenciar fatores como bullying, violência e pobreza pode impactar profundamente o desenvolvimento emocional das crianças.

Quais os principais transtornos mentais na infância e adolescência?

Diversos transtornos mentais são descritos com início na adolescência, como transtornos de ansiedade, transtornos relacionados a estresse, transtornos do humor, transtornos comportamentais disruptivos e os distúrbios do neurodesenvolvimento. Mais do que a categorização em “caixas de diagnóstico”, o mais importante é entendermos que crianças e adolescentes podem ter sofrimento psíquico, alerta o Prof. Benito.
 
O especialista explica que, no caso do adolescente, os transtornos mentais são
influenciados por uma série de fatores, como a transição da infância para a adolescência, com o afastamento dos pais, e vulnerabilidades adicionais que surgem nesse período.
 
“Esse processo de deixar para trás um mundo e começar uma outra forma de existir. Mas a gente vai acrescentar nisso algumas vulnerabilidades, digamos assim, novas, alguns penduricalhos que a gente colocou nesse desenvolvimento do adolescente”, observa.
 
A vida em sociedade e os padrões sociais também ampliam os dilemas dessa fase. “Então, pressão para sucesso, felicidade, bom desempenho. É a cultura do hiperconsumo, essa coisa quase tirânica do corpo perfeito. Toda a difusão das mídias sociais, tudo isso aumentou bastante essa vulnerabilidade emocional dos jovens e dá pra explicar porque que na contemporaneidade nós temos mais sofrimento psíquico e mais questões relacionadas à saúde mental”, analisa.

Quais os sintomas de ansiedade infantil?

Os sintomas de ansiedade infantil podem ser identificados na separação dos medos comuns conforme a idade. Por exemplo, crianças mais novas podem ter medos imaginários, enquanto adolescentes têm pressões sociais e preocupações relacionadas ao sucesso.
 
Em casos de ansiedade generalizada, por exemplo, há:
  • Temores múltiplos e difusos intensificados pelo estresse;
  • Tensão muscular;
  • Dificuldade para prestar atenção, hiperatividade e agitação;
  • Distúrbio do sono;
  • Sudorese excessiva;
  • Exaustão e desconforto físico (dor de estômago, dores musculares e cefaleia).

Quais os sintomas de depressão na infância?

A depressão infantil apresenta sintomas similares aos do adulto, “mas estão relacionados a preocupações típicas das crianças, como tarefas escolares e brincadeiras”, aponta o especialista. Os sintomas passam por:
  • Dificuldade de expressar seus sentimentos íntimos, levando a sintomas como isolamento social ou atos de delinquência;
  • Irritabilidade e não necessariamente por tristeza;
  • Manifestações hiperativa, agressiva e antissocial;
  • Fadiga ou perda de energia;
  • Insônia ou hipersonia;
  • Baixo apetite ou comer em excesso;
  • Baixa concentração.

Quais os sintomas de TDAH?

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) pode se apresentar em três formas: desatento; hiperativo/impulsivo; e combinado.
 
Os sintomas variam de intensidade e gravidade, podendo ser percebidos em ambientes como em casa ou na escola.
 
Em outras palavras, crianças e adolescentes podem ter problemas que passam por:
  • Dificuldade de atenção prolongada, seja para concentração em estudos ou até para concluir tarefas;
  • Sintomas hiperativos e impulsivos.

Estigma de saúde mental infantil e impactos da pandemia

A pandemia intensificou os desafios à saúde mental infantil, limitando a interação social e o aprendizado, com o distanciamento de amigos e a proximidade constante dos pais como exemplos marcantes.
 
Neste cenário pós-pandêmico e moderno, dada a complexidade dos transtornos mentais infantis, é preciso combater o estigma e enfrentar as doenças abertamente. “O silêncio apenas reforça o estigma para adolescentes e médicos”, alerta o Prof. Dr. Benito.
 
Ele enfatiza a necessidade de compreender a complexidade humana e incluir a saúde mental na consulta pediátrica. “O sofrimento psíquico não deve ser reprimido, mas compreendido e acolhido. Fortalecer o vínculo no atendimento pediátrico é essencial para agir eficazmente contra essas questões de sofrimento psíquico”.

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